Anunciado formalmente em outubro de 2019, a implementação das escolas cívico-militares levanta dúvidas na população sobre doutrina e funcionamento.

O Presidente Jair Bolsonaro no lançamento do Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares (Pecim), em Brasília. — Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil

 

 

“Companhia sentido”, ordena o Comandante a mais de quinhentos alunos do Colégio Estadual da Polícia Militar, Unidade Hugo de Carvalho Ramos. É com comandos como este que os militares, chefes e fiscais colocam em ordem os alunos das escolas cívico-militares goianas – no Estado existem mais de 60 da categoria e com o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares pode haver ainda mais.

A partir do ano que vem, esta será a rotina de 54 novas escolas cívico-militares, que serão instaladas ao redor do país. A atitude e a forma com que os militares administram a escola causa estranheza e puxa olhares incrédulos e duvidosos se a opção realmente é adequada para crianças. Porém, justamente por tal disciplina, essas gestões têm chamado atenção.

A combinação dos ensinamentos civis com a disciplina dos militares, inspirou o mais novo programa de educação oferecido pelo Ministério da Educação (MEC). Cumprindo uma de suas principais promessas do período de campanha, a gestão do atual presidente Jair Bolsonaro, colocou em prática o Programa Nacional das Escolas Cívico-Militares. Segundo o site oficial do Programa, a proposta é a implantação de 216 Escolas Cívico-Militares até 2023.

Durante todo o período de campanha, a atual gestão presidencial sempre se mostrou adepta dos costumes militares. Vindo de uma carreira no exército, o atual presidente Jair Bolsonaro, demonstrou diversas vezes em entrevistas e em suas redes sociais a aprovação da disciplina do militarismo e acredita que tal influência dentro das salas de aula é o segredo para um futuro promissor na educação.

Porém, diferente das escolas militares, cujo os ensinamentos e gestões são realizados apenas por militares, as escolas cívicas preveem uma dupla participação. “Os militares atuarão no apoio à gestão escolar e à gestão educacional, enquanto professores e demais profissionais da educação continuarão responsáveis pelo trabalho didático-pedagógico.” Afirma o MEC, em seu site oficial.

Para muitos ainda falta explicação. A ideia de ter uma escola comandada por militares assusta pelo desconhecimento e pelo ponto de vista errôneo de que os alunos serão tratados como cadentes em treinamento. No estado de São Paulo, atos contra a implementações já foram convocados.

Para o vereador Gustavo Petta, presidente da Comissão de Educação e Esporte da Câmara de Vereadores de Campinas, uma das cidades escolhidas para sediar uma das novas escolas cívico-militares, a decisão é um “desrespeito à gestão democrática e à diversidade. Não falamos da criação de uma escola militar, mas de uma escola pública que será militarizada e de experiências que vem ocorrendo em outros estados de assédio moral e desrespeito a professores e alunos”.

Segundo dados divulgados pelo Sindicato dos Professores do Estado de Goiás, os casos de violência nas salas de aula é algo recorrente.  O Diagnóstico Participativo das Violências nas Escolas da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) indicou que 69,7% dos jovens viram algum tipo de agressão dentro da escola. Em 65% dos casos, a violência parte dos próprios alunos; em 15,2%, dos professores; em 10,6%, de pessoas de fora da escola; em 5,9%, de funcionários; e em 3,3%, de diretores.

Em contrapartida, em Goiás, um dos estados considerado exemplo em educação, as escolas cívico-militares são destaque e os casos de violência estudantil são quase nulos. Em parceria com a Secretária de Segurança Pública com a Secretária de Educação, os CEPMG – além dos altos índices de aprovação e uma nota alta nos exames do MEC – incentivam a atuação dos alunos em projetos sociais e atividades extraclasses como a banda oficial da escola.

Segundo o Jornal de Brasília, após a “militarização”, o capitão Eric Chiericato, comandante do Colégio Fernando Pessoa, reforça que as mudanças foram incontáveis: “A demanda é enorme, já não temos mais vagas”, afirma. “Vemos mudança em todos os aspectos, temos resultados extremamente positivos. Os pais agradecem. E no que tange à parte pedagógica, todas as metas foram atingidas, os números só cresceram”. Fora as conquistas acadêmicas, as escolas possuem atividades extracurriculares e realizam ações voluntárias.

Neste momento, colocamos na balança. Sendo a proposta do governo Bolsonaro apenas voluntária, cada uma das gestões que aceitaram o modelo das escolas cívico-militares possuem o benefício da dúvida e das comparações.